Fotografia documental sobre VLT de Salvador inaugura uma nova era de mobilidade sobre trilhos no Brasil

Imagem: Foto: Wikimedia Commons · Licença: cc-by-sa

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VLT de Salvador inaugura uma nova era de mobilidade sobre trilhos no Brasil

VLT de Salvador inaugura uma nova era de mobilidade sobre trilhos no Brasil

Fonte principal: Conheça 9 projetos de VLT no Brasil -, Notícias - Mobilize Brasil, Brasil tenta, de novo, expandir as ferrovias. Mas ainda falta combinar com os chineses · Por Redação Mundo Trilhos


A inauguração da Estação Calçada não é apenas um marco local, mas o prenúncio de uma transformação nacional na forma como o país encara os veículos leves sobre trilhos.

Os trilhos são a geometria material do futuro. Dizê-lo não é um exercício de nostalgia ferroviária, mas a constatação técnica de que cidades densas e economicamente vibrantes precisam de sistemas de transporte de média capacidade que ocupem o espaço urbano com inteligência, e não com brutalidade rodoviarista.

Foi com essa lógica que Salvador inaugurou, em 17 de abril de 2025, a Estação Calçada, a primeira parada funcional do seu novo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). O trecho inicial de 4 quilômetros entre Calçada e Lobato já opera em fase de testes com tarifa zero, um gesto de ousadia em uma nação habituada a tratar a mobilidade como commodity.

A nova linha soteropolitana é um projeto de requalificação urbana sobre carris, articulando tecnologia de piso baixo — que garante acessibilidade universal e embarque ao nível da plataforma — com um sistema semi-segregado que permite ao trem conviver com o tecido da cidade sem os atropelos do ônibus. A escolha pela catenária aérea como fonte de alimentação, descartando a combustão a diesel que ainda macula sistemas como o da Baixada Santista, sinaliza um compromisso com a descarbonização do transporte.

Embora alguns gabinetes ainda ensaiem especulações com o ART (Veículo Leve Pneumático), um híbrido com pneus que tenta imitar a estabilidade dos trilhos, Salvador apostou no aço sobre aço. A escolha é carregada de simbologia técnica, pois enquanto o pneu se desgasta na fricção do asfalto, a roda de aço metálico devolve energia à rede na frenagem e oferece mais de três décadas de vida útil com menor custo operacional.

O que ocorre na capital baiana não é um fato isolado, mas o catalisador de uma onda de projetos que, como apontou o portal especializado Via Trolebus, atinge ao menos nove cidades brasileiras em diferentes estágios de desenvolvimento. O movimento reafirma que o país está, ainda que tardiamente, reabilitando os veículos leves sobre trilhos como tecnologia central do desenvolvimento, abandonando o preconceito do século passado que condenava o bonde ao desaparecimento.

A amplitude dos projetos impressiona pela escala e pela geografia. Niterói, por exemplo, teve aprovado um investimento de R$ 450 milhões para implantar um VLT de 5 quilômetros com 10 estações, conectando o bairro do Barreto ao Terminal João Goulart no Centro, em uma parceria entre a prefeitura e o governo federal.

Mais ambicioso ainda, o projeto de Campinas prevê 44 quilômetros de linha e 18 estações, costurando três municípios e ligando o centro da metrópole ao Aeroporto de Viracopos, o que transformará a logística urbana da região. Em Sorocaba, a proposta é aproveitar a malha ferroviária existente para implantar 25 quilômetros de VLT com 13 estações, uma estratégia inteligente de reuso de ativos de infraestrutura que reduz o custo de implantação.

Contudo, a materialização desses projetos esbarra na matemática implacável do financiamento. A engenharia financeira dos VLTs exige que o BNDES e outras agências estatais ofereçam prazos de amortização longos, que podem chegar a 60 anos, além de uma carência robusta durante a fase de obras em que o sistema ainda não gera receita.

O fato de a malha ferroviária brasileira ter se concentrado historicamente em trens pesados de carga, que carregaram 406,6 milhões de toneladas de minério de ferro somente em 2025, criou uma lacuna de conhecimento industrial e operacional nos sistemas de passageiros de superfície. Recuperar essa capacidade exigirá não apenas dinheiro público, mas a formação de cadeias de fornecedores que dominem desde a sinalização semafórica inteligente até a fabricação de truques ferroviários modernos.

A presença de capital e tecnologia internacional, como a que se vislumbra com possíveis parcerias chinesas em projetos de maior escala, será um fator determinante para o sucesso dessa nova geração de VLTs, embora o pragmatismo recomende que o país não terceirize por completo a inteligência de projeto. Salvador demonstrou, com sua primeira estação em operação, que há competência local para gerenciar a complexidade da implantação.

O significado dessa nova era dos trilhos ultrapassa a mera estatística de passageiros transportados, pois cada quilômetro de VLT semi-segregado reorganiza o solo urbano em favor do pedestre e do cidadão, subtraindo espaço do automóvel particular. Quando um trem de piso baixo desliza silenciosamente pela Calçada em direção ao Lobato, o que se ouve não é o rangido do passado, mas o som abafado de cidades que começam a se reconciliar com sua própria geografia.